TOC: preciso tomar remédio?

Por: Aline Abrantes Soares CRP 04/74732

Entenda qual é o papel dos medicamentos no tratamento do Transtorno Obsessivo-Compulsivo

Quando alguém recebe o diagnóstico de Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC), uma das dúvidas que surgem é: “Vou precisar tomar remédio?”
Essa dúvida costuma vir acompanhada de medo, preconceito, e muitas informações desencontradas. Algumas pessoas acreditam que o medicamento é o “último recurso”, outras temem ficar dependentes. Há ainda quem pense que tomar remédio é sinônimo de fraqueza.

Neste texto, vamos esclarecer qual é o verdadeiro papel da medicação no tratamento do TOC e quando ela é indicada.

O tratamento padrão-ouro do TOC

A Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) com Exposição e Prevenção de Resposta (EPR) é considerada tratamento de primeira linha para o TOC. Ela atua diretamente no ciclo obsessão–ansiedade–compulsão, ajudando o paciente a quebrar o padrão de evitação e ritualização. Existem diversos estudos que comprovam a eficiência da EPR na melhora significativa dos sintomas e redução de recaídas (CORDIOLI, 2014).
Entretanto, em muitos casos, a associação entre psicoterapia e medicação apresenta resultados superiores ao uso isolado de uma das abordagens, especialmente quando os sintomas são moderados a graves ou quando há comorbidade (por exemplo, depressão).

Os medicamentos mais utilizados

Os medicamentos mais utilizados no tratamento do TOC são os antidepressivos que atuam sobre a serotonina (os chamados ISRS — Inibidores Seletivos da Recaptação de Serotonina) e o antidepressivo tricíclico clomipramina. Segundo a Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), os ISRS são considerados primeira escolha por apresentarem boa eficácia e melhor perfil de tolerabilidade (ABP, 2020). Isso porque são altamente seletivos, atuando principalmente no transportador de serotonina, com interferência mínima em outros receptores, agindo, portanto, com menor incidência de efeitos adversos. Entre os ISRS mais prescritos estão Sertralina, Fluoxetina, Fluvoxamina, Paroxetina e Citalopram/Escitalopram.

Como esses medicamentos funcionam?

O TOC está relacionado a alterações na regulação da serotonina e em circuitos cerebrais que envolvem o córtex orbitofrontal, o corpo estriado e o tálamo. A serotonina regula:
● inibição comportamental
● tolerância ao desconforto
● processamento de ameaça
● flexibilidade cognitiva


Os ISRS aumentam a disponibilidade de serotonina nas sinapses, o que contribui para:
● redução da intensidade das obsessões
● diminuição da ansiedade associada
● menor urgência para realizar compulsões

É importante destacar:
O medicamento não “apaga” os pensamentos, mas reduz a carga emocional associada a eles (ansiedade, intrusão, impulso de realizar rituais, etc), tornando possível que o paciente se engaje melhor na psicoterapia.
Muitas vezes, na prática clínica, observamos que a medicação cria uma espécie de “janela terapêutica”: a ansiedade diminui o suficiente para que a pessoa consiga realizar a EPR.

Quando a medicação é indicada?

A prescrição medicamentosa costuma ser considerada nas seguintes situações:
Sintomas moderados a graves que prejudicam o funcionamento social, ocupacional ou acadêmico.
Resposta insuficiente à psicoterapia isolada (EPR), ou quando o paciente não consegue iniciar/sustentar EPR por excesso de ansiedade. Nesses casos a medicação pode “abrir uma janela” para a terapia.
Comorbidades clínicas (como: depressão grave e transtorno de ansiedade generalizada) nas quais o tratamento medicamentoso também é necessário.

Efeitos colaterais


Os ISRS costumam ter boa tolerabilidade, mas podem causar:
náusea, alteração do sono, redução da libido, desconforto gastrointestinal.
A clomipramina pode apresentar maior risco de efeitos anticolinérgicos (boca seca, constipação, sonolência). O acompanhamento médico regular é fundamental para ajustes de dose e o manejo adequado.


Papel da família e do contexto psicossocial no tratamento medicamentoso


A medicação é mais eficaz quando faz parte de um plano integrado em frentes: avaliação e acompanhamento por psiquiatra, psicoterapia (EPR) com psicólogo capacitado, e apoio familiar. A família pode ajudar a não reforçar rituais e a incentivar a adesão ao tratamento.
Protocolos de cuidado em rede (CAPS, atenção básica e especializada) seguem essa lógica integrada no SUS e em serviços privados.


Mitos e fatos


● Mito: “Remédio sozinho resolve tudo”. Fato: A medicação atua na regulação neuroquímica e pode reduzir os sintomas, mas é a EPR que atua na modificação comportamental e na relação do paciente com seus pensamentos. Estudos mostram que a combinação tende a apresentar melhores taxas de resposta em casos
moderados e graves.
● Mito: “Tomar medicação é sinal de fraqueza”. Fato: Uso de medicação é uma intervenção baseada em evidências, como qualquer outro tratamento médico; muitas condições de saúde exigem combinação de intervenção farmacológica e terapia.
● Mito: “Vou ficar dependente.” Fato: ISRS não causam dependência como benzodiazepínicos. A retirada deve ser gradual e supervisionada.

Conclusão


A decisão sobre usar ou não medicação deve ser feita com base em uma avaliação profissional adequada, por profissionais capacitados (psiquiatra + psicólogo), considerando o contexto individual, a gravidade do quadro e a presença de comorbidades. A EPR é o tratamento de primeira linha, e a medicação entra como complemento.

Referências


ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE PSIQUIATRIA (ABP). Diretrizes para o tratamento do
Transtorno Obsessivo-Compulsivo. Rio de Janeiro: ABP, 2020.

CORDIOLI, A. V. et al. Transtorno obsessivo-compulsivo: diagnóstico e tratamento. Porto
Alegre: Artmed, 2014.
GOMES, J. B.; CORDIOLI, A. V. Tratamento farmacológico do transtorno obsessivo-
compulsivo. Revista Brasileira de Psiquiatria, São Paulo, v. 23, supl. 2, p. 17-23, 2001.
NARDI, A. E.; VALENÇA, A. M. Psicofarmacologia clínica. Rio de Janeiro: Guanabara
Koogan, 2015.
MINISTÉRIO DA SAÚDE (BR). Biblioteca Virtual em Saúde. Transtorno

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