Por: Aline Abrantes Soares CRP 04/74732
Entenda a relação entre o TOC e a incerteza, e por que é preciso aprender a tolerá-la
É realmente possível saber o que acontecerá de um momento para o outro? Podemos prever eventos com total certeza? A resposta é não. Ainda assim, convivemos diariamente com dúvidas e imprevistos porque, na maior parte do tempo, percebemos que estamos seguros.
A vida real envolve incertezas que toleramos. No entanto, no Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC), a dúvida não é apenas desconfortável, ela é interpretada como perigosa, ameaçadora e inaceitável. Existem crenças que sustentam essa sensação de perigo diante da incerteza, como a ideia de que:
- é necessário ter certeza absoluta;
- você não é capaz de lidar com situações imprevisíveis;
- e não consegue tolerar situações ambíguas, sem respostas claras (Taylor, 2002 apud Evans, 2023).
Assim, o TOC faz parecer que buscar a certeza é a única forma de se manter seguro.
Então o problema é a dúvida?
Não exatamente. O problema está na necessidade de eliminá-la completamente.
A pessoa com TOC tende a interpretar a incerteza como algo que precisa ser resolvido imediatamente. A sensação de ‘não saber’ passa a ser vista como perigosa, e surge uma necessidade de se obter garantias.
O que ocorre é uma superestimação de ameaças. Ou seja, o cérebro passa a agir como se uma possibilidade fosse um risco real. Situações ambíguas, pensamentos intrusivos ou pequenas dúvidas do cotidiano começam a ser percebidos como sinais de perigo.
O que é a intolerância à incerteza?
A intolerância à incerteza é a dificuldade de lidar com situações em que não existe garantia total. No TOC, isso costuma estar relacionado a pensamentos, decisões, memórias ou sensações. O cérebro da pessoa com TOC fica extremamente sensível a possíveis ameaças. Assim, situações incertas podem parecer perigosas mesmo quando não há um risco real. A mente entra em “modo de alerta”, tentando garantir segurança, e a atenção se volta intensamente para aquela dúvida.
Com isso, se torna mais difícil avaliar a situação de maneira ampla e racional. A mente começa a criar hipóteses e cenários ameaçadores, gerando ansiedade e uma necessidade urgente de resolver a dúvida. Então surgem tentativas de aliviar esse desconforto, como:
- checagens repetidas;
- pedidos de confirmação (reasseguramento);
- rituais;
- análises mentais constantes;
- ou evitação de situações ambíguas.
Essas estratégias até podem trazer alívio momentâneo, mas ele dura pouco.
O ciclo costuma funcionar assim:
Dúvida → Ansiedade → Compulsão → Alívio momentâneo → Nova dúvida
Quanto mais a pessoa tenta alcançar certeza, mais incerto tudo parece. Isso acontece porque nenhuma resposta parece suficiente, e novas possibilidades continuam surgindo. Assim, a busca por certeza acaba se tornando um combustível para o próprio TOC.
Como a TCC trabalha a intolerância à incerteza?
Na Terapia Cognitivo-Comportamental, especialmente através da Exposição e Prevenção de Resposta (EPR), o objetivo não é eliminar as dúvidas, mas ajudar a pessoa a desenvolver tolerância à incerteza.
Isso significa aprender, aos poucos, que é possível sentir dúvida sem precisar responder a ela com compulsões. Na prática, o tratamento pode envolver:
- resistir às checagens;
- reduzir pedidos de confirmação;
- interromper análises mentais;
- e permanecer em contato com a incerteza sem tentar neutralizá-la imediatamente.
No começo, isso costuma ser desconfortável. Mas, com o tempo, o cérebro aprende algo muito importante: sentir dúvida não significa estar em perigo.
Conclusão
O TOC frequentemente faz a pessoa acreditar que só será possível ficar segura quando existir certeza absoluta. Mas a tentativa constante de alcançar essa certeza acaba alimentando o próprio ciclo obsessivo-compulsivo.
Aprender a tolerar a incerteza não significa ser irresponsável ou negligente. Significa reconhecer que a vida nunca será totalmente previsível — e que é possível viver com mais liberdade mesmo sem respostas perfeitas.
No tratamento do TOC, o objetivo não é acabar com todas as dúvidas. É aprender que elas podem existir sem comandar a sua vida.
Referências
CORDIOLI, Aristides Volpato. Vencendo o transtorno obsessivo-compulsivo: manual da terapia cognitivo-comportamental para pacientes e terapeutas. Porto Alegre: Artmed, 2014.
ROCKWELL-EVANS, Kim. What drives the intolerance of the uncertainty rule in OCD. New Harbinger Publications, 28 set. 2023. Disponível em: https://www.newharbinger.com/blog/self-help/what-drives-the-intolerance-of-the-uncertainty-rule-in-ocd/. Acesso em: 6 maio 2026.
TAYLOR, Steven. Fundamentos cognitivos do transtorno obsessivo-compulsivo. Porto Alegre: Artmed, 2011.