Por: Dayane Peixoto CRP 04/69422
Nos últimos anos, ferramentas de inteligência artificial, como o ChatGPT, passaram a fazer parte da rotina de milhões de pessoas. Elas são utilizadas para estudar, trabalhar, organizar tarefas e responder dúvidas sobre os mais diversos assuntos. Para a maioria das pessoas, representam apenas mais uma ferramenta tecnológica. Para quem convive com o Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC), porém, esse uso pode assumir uma função completamente diferente.
O problema não está na inteligência artificial em si, mas na forma como ela é utilizada. Quando a IA passa a ser usada repetidamente para aliviar a ansiedade e reduzir a incerteza provocada pelas obsessões, ela pode tornar-se parte do próprio ciclo do TOC. Nesses casos, deixa de ser apenas uma fonte de informação e passa a funcionar como uma compulsão, contribuindo para a manutenção do transtorno.
O ciclo do TOC não depende da ferramenta utilizada
O Transtorno Obsessivo-Compulsivo é caracterizado pela presença de obsessões, que podem se manifestar como pensamentos, imagens ou impulsos intrusivos e indesejados, e de compulsões, que podem ser comportamentos observáveis ou processos mentais realizados com o objetivo de reduzir a ansiedade provocada pelas obsessões.
As compulsões assumem diferentes formas. Algumas pessoas evitam determinadas situações, outras realizam rituais, buscam tranquilização constante, verificam repetidamente informações ou recorrem à neutralização mental. Apesar das diferenças, todas cumprem a mesma função: proporcionar um alívio imediato diante do desconforto.
É justamente por isso que praticamente qualquer recurso pode transformar-se em uma compulsão quando passa a ser utilizado para reduzir a ansiedade. A inteligência artificial não é uma exceção. Assim como familiares, mecanismos de busca na internet ou profissionais de saúde podem ser utilizados de forma compulsiva na busca por tranquilização, a IA também pode assumir esse papel.
Como a IA pode ser utilizada como uma compulsão
Na prática, pessoas com TOC podem recorrer repetidamente à inteligência artificial para:
- confirmar se um pensamento é “normal”;
- verificar se determinada situação representa um risco real;
- buscar garantias de que não cometeram um erro;
- pedir repetidas explicações sobre um mesmo tema;
- confirmar se um comportamento foi moralmente correto;
- tentar diferenciar um sintoma do TOC de uma ameaça real;
- solicitar interpretações sobre sintomas físicos ou psicológicos.
Inicialmente, a resposta costuma produzir alívio. Esse efeito, porém, tende a durar pouco. Em pouco tempo surgem novas dúvidas, que levam a novas consultas e reforçam o ciclo obsessivo-compulsivo.
Na prática clínica, não é raro observar pacientes reformulando a mesma pergunta inúmeras vezes para a inteligência artificial. Embora as palavras mudem, o objetivo permanece o mesmo: encontrar uma resposta capaz de eliminar completamente a dúvida. O problema é que essa resposta simplesmente não existe.
A busca por certeza nunca termina
Um dos processos centrais envolvidos no TOC é a dificuldade em tolerar a incerteza. Diferentemente do que muitas pessoas imaginam, o sofrimento não decorre apenas da presença dos pensamentos obsessivos, mas da necessidade intensa de obter certeza sobre eles.
Como a certeza absoluta é inalcançável, nenhuma resposta consegue eliminar completamente a dúvida. O alívio obtido após uma consulta costuma ser temporário e, pouco tempo depois, a necessidade de confirmação reaparece.
O problema, portanto, não é o ChatGPT ou qualquer outra ferramenta de inteligência artificial, mas a função que ela passa a exercer. Quando a IA é utilizada repetidamente para aliviar a ansiedade, ela assume o mesmo papel que antes podia ser desempenhado por familiares, profissionais de saúde, mecanismos de busca ou redes sociais: oferecer uma tranquilização momentânea que, embora reduza a ansiedade por alguns instantes, acaba mantendo o ciclo do transtorno.
Conclusão
A inteligência artificial provavelmente fará parte da rotina das pessoas de forma cada vez mais intensa nos próximos anos. Embora o uso dessas ferramentas por pessoas com TOC seja um fenômeno relativamente recente, o mecanismo psicológico envolvido não é novo. A ferramenta muda, mas o processo permanece o mesmo: a busca repetida por tranquilização diante da dificuldade em tolerar a incerteza.
O objetivo deste artigo não é demonizar a tecnologia nem defender que ela deixe de ser utilizada. O ponto central é reconhecer quando a consulta deixa de ser uma busca por informação e passa a funcionar como uma compulsão, alimentando o ciclo obsessivo-compulsivo. Reconhecer esse padrão é um passo importante no tratamento. A Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), especialmente por meio da Exposição e Prevenção de Resposta (EPR), busca justamente ajudar o paciente a interromper esse ciclo, reduzindo a necessidade de buscar tranquilização e desenvolvendo uma relação mais saudável com a dúvida e a incerteza.