Você já se questionou porque os pensamentos intrusivos (obsessões) no TOC parecem não ir embora?
Na Terapia Cognitivo-Comportamental, entende-se que crenças disfuncionais e o modo como a atenção é direcionada influenciam a forma como o indivíduo interpreta o mundo. Essas interpretações, por sua vez, impactam diretamente seus comportamentos, emoções e até suas reações físicas.
Nesse contexto, Aaron Beck, psiquiatra americano considerado o pai da Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), desenvolveu o chamado “modelo cognitivo”. Esse modelo explica como os pensamentos e percepções de uma pessoa influenciam a maneira como ela se sente e age.

Seguindo a lógica do modelo cognitivo, é possível compreender como o TOC impacta as emoções, os comportamentos e até as respostas fisiológicas do indivíduo a partir das suas “ideias”, ou seja, das obsessões que se tornam persistentes e difíceis de se desprender.
O modelo cognitivo do TOC
O modelo cognitivo do TOC, conforme descrito por Aristides Volpato Cordioli, baseia-se em princípios que explicam como pensamentos intrusivos podem se transformar em fonte significativa de sofrimento. Ele parte da ideia de que não são os pensamentos em si que causam o problema, mas a forma como são interpretados e as estratégias utilizadas para lidar com eles. A partir dessa perspectiva, é possível compreender como se forma e se mantém o ciclo das obsessões e compulsões.
- Pensamentos intrusivos e indesejados fazem parte do funcionamento mental de qualquer pessoa, podendo surgir no cotidiano em diferentes situações.
- No caso de indivíduos com TOC, esses pensamentos passam a ser interpretados de forma negativa, o que contribui para que se transformem em obsessões.
- Essas interpretações distorcidas, frequentemente marcadas por conteúdos catastróficos ou excessivamente negativos, são responsáveis por gerar reações emocionais intensas, como medo, ansiedade e culpa. Além disso, levam o indivíduo a adotar estratégias para lidar com a ameaça percebida, como rituais, evitação, tentativas de neutralização e um estado constante de hipervigilância.
- O alívio momentâneo obtido por meio da realização de rituais e comportamentos evitativos acaba reforçando a necessidade de repeti-los, validando crenças disfuncionais subjacentes e contribuindo para a manutenção dos sintomas obsessivo-compulsivos.
- Crenças disfuncionais subjacentes aos sintomas (a superestimação de risco e responsabilidade, a intolerância à incerteza, a crença no poder dos próprios pensamentos e o perfeccionismo) funcionam como fatores de vulnerabilidade, favorecendo que alguns indivíduos desenvolvem obsessões e interpretem de forma distorcida seus pensamentos intrusivos.
- A hipervigilância também desempenha um papel importante, pois aumenta a atenção direcionada às obsessões, tornando-as mais frequentes e intensas.

Conclusão:
Dessa forma, na perspectiva da TCC, os pensamentos “grudam” não porque são mais fortes ou perigosos em si, mas pela forma como são interpretados e pelas estratégias usadas para lidar com eles. Quanto mais o indivíduo tenta controlar, evitar ou neutralizar esses pensamentos, mais acaba reforçando sua importância e frequência.
No entanto, é importante destacar que esse processo não acontece apenas pela interpretação: fatores como vulnerabilidades cognitivas, história de vida e até predisposições biológicas também influenciam quem terá mais dificuldade em lidar com esses pensamentos.
Assim, o problema central não está na presença dos pensamentos intrusivos, que são comuns a todos, mas no significado atribuído a eles e no ciclo que se forma a partir disso. Compreender esse processo é um passo essencial para enfraquecer esse ciclo e construir uma relação mais saudável com os próprios pensamentos.
Referências:
CHAND, Suma P.; KUCKEL, Daniel P.; HUECKER, Martin R. Cognitive Behavioral Therapy. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK470241/
BECK INSTITUTE. Understanding Cognitive Behavioral Therapy (CBT). Disponível em: https://beckinstitute.org/about/understanding-cbt/
INSTITUTO DE PSICOLOGIA E TERAPIA COGNITIVA (IPTC). Modelo Cognitivo. Disponível em: https://iptc.net.br/modelo-cognitivo/
CORDIOLI, Aristides Volpato (Org.). TOC: manual de terapia cognitivo-comportamental para o transtorno obsessivo-compulsivo. 2. ed. Porto Alegre: Artmed, 2014.