Ruminação no TOC: pensar demais pode se tornar uma compulsão

Por: Aline Abrantes Soares CRP 04/74732

Pensar sobre nossas experiências faz parte da vida. Refletimos sobre uma conversa, tentamos entender por que nos sentimos de determinada maneira ou analisamos uma situação antes de tomar uma decisão. No entanto, para algumas pessoas com Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC), esse processo de reflexão e análise pode acontecer de forma repetitiva, angustiante e difícil de interromper. É o que chamamos de ruminação.

No TOC, a ruminação costuma aparecer como uma tentativa de solucionar uma dúvida obsessiva por meio do pensamento. A pessoa analisa repetidamente uma situação, uma lembrança, um pensamento ou uma sensação na esperança de chegar a uma conclusão que traga segurança, afastando o desconforto: “Será que eu fiz alguma coisa errada?”, “Por que pensei isso?”, “Será que eu senti algo naquele momento?”, “E se essa lembrança significar alguma coisa?” ou “Como posso ter certeza de que isso não aconteceu?”.

À primeira vista, esse processo pode parecer apenas uma tentativa de compreender melhor o que aconteceu. Porém, quanto mais a pessoa pensa, mais dúvidas podem surgir, trazendo mais desconforto emocional. Em vez de chegar a uma resposta satisfatória, ela sente necessidade de analisar novamente, considerar novas possibilidades, revisar detalhes e buscar argumentos que confirmem ou descartem aquilo que teme.

Na prática, a ruminação pode assumir diferentes formas. Algumas pessoas revisam mentalmente acontecimentos do passado para verificar se fizeram algo errado. Outras analisam repetidamente seus sentimentos para descobrir se realmente amam alguém, se sentiram atração por determinada pessoa ou se uma reação corporal significa alguma coisa. Também podem reconstruir conversas, examinar suas próprias intenções, comparar lembranças ou tentar encontrar uma explicação definitiva para um pensamento intrusivo.

Diferente das compulsões mais visíveis, como lavar as mãos ou verificar uma porta repetidas vezes, a ruminação acontece dentro da mente. Por isso, muitas vezes ela não é reconhecida como parte do ciclo do TOC. A própria pessoa pode acreditar que precisa continuar pensando porque ainda não foi o suficiente, ainda não encontrou a resposta certa.

Quando pensar se transforma em uma compulsão

É importante destacar que nem toda reflexão é uma compulsão. Pensar sobre problemas, avaliar situações e buscar soluções são processos importantes e necessários. Entenda que, no contexto do TOC, o que diferencia a ruminação não é simplesmente a quantidade de pensamentos ou quantas vezes se repetem, mas a função que esse processo passa a exercer.

Em geral, a ruminação costuma ser utilizada para diminuir a ansiedade, eliminar uma dúvida ou alcançar certeza sobre algo que a pessoa considera ameaçador. Existe uma sensação de que é necessário continuar pensando até finalmente “resolver” a questão.

Inicialmente, quando a pessoa chega a uma resposta que parece satisfatória, ela pensa ter resolvido a questão e, assim, pode surgir um alívio momentâneo. Entretanto, esse alívio tende a ser temporário. Uma nova dúvida pode aparecer pouco depois: “Mas e se eu tiver esquecido algum detalhe?”, “E se eu estiver interpretando errado?” ou “E se houver outra explicação?”. Assim, a pessoa volta a analisar o problema, iniciando novamente o processo e mantendo o ciclo do TOC.

Como a ruminação mantém o ciclo do TOC

Assim como as outras compulsões, a ruminação pode funcionar de maneira semelhante a outras compulsões. Diante de uma obsessão, surge ansiedade, desconforto ou incerteza. Para aliviar essa sensação, a pessoa tenta encontrar mentalmente uma resposta que ofereça segurança. Quando consegue uma conclusão aparentemente satisfatória, o desconforto diminui. Esse alívio pode reforçar a ideia de que analisar o problema foi necessário e, diante de uma nova dúvida, a tendência é recorrer novamente à ruminação.

No entanto, o problema é que questões obsessivas frequentemente não permitem o grau de certeza que a pessoa procura. É possível revisar uma lembrança inúmeras vezes e ainda pensar “E se eu estiver esquecendo alguma coisa?”. É possível analisar sentimentos durante horas e ainda surgir a dúvida “Mas será que é isso mesmo que eu sinto?”.

Com isso, quanto mais a pessoa tenta alcançar certeza absoluta, mais atenção dedica à própria dúvida. Detalhes que antes pareciam irrelevantes passam a ser examinados, novas possibilidades são consideradas, novos gatilhos são percebidos e a sensação de que existe algo a ser resolvido pode se tornar ainda mais intensa. Dessa forma, a ruminação não resolve a obsessão, na verdade ela ensina à pessoa que aquela dúvida é importante demais para permanecer sem resposta.

Nem toda dúvida precisa ser resolvida

No tratamento do TOC, o objetivo não é impedir a pessoa de pensar nem estabelecer que toda reflexão sobre uma preocupação seja problemática. O foco está em reconhecer quando o pensamento deixou de ser uma busca útil por solução e passou a funcionar como uma tentativa repetitiva de eliminar a incerteza. Isso pode significar aprender a perceber uma pergunta obsessiva sem necessariamente respondê-la, abandonar a tentativa de chegar à conclusão perfeita e permitir que algumas dúvidas permaneçam abertas.

Assim, em vez de continuar investigando mentalmente “O que isso significa?”, “Como posso ter certeza?” ou “E se houver algo que eu não percebi?”, a pessoa aprende gradualmente a tolerar a experiência de não saber com absoluta certeza. Isso não significa concordar com aquilo que o TOC sugere, acreditar que o medo é verdadeiro ou deixar de refletir sobre questões importantes da vida. Significa reconhecer que nem toda dúvida exige uma resposta e que tentar eliminar completamente a incerteza pode ser justamente aquilo que mantém o ciclo obsessivo.

Com tratamento adequado, é possível aprender a identificar a ruminação, reduzir a necessidade de solucionar mentalmente as obsessões e desenvolver uma relação mais flexível com pensamentos, dúvidas e incertezas.

Referências

CORDIOLI, Aristides Volpato. A terapia cognitivo-comportamental no transtorno obsessivo-compulsivo. Revista Brasileira de Psiquiatria, São Paulo, v. 30, supl. 2, p. S65-S72, 2008. DOI: 10.1590/S1516-44462008000600003.

CORDIOLI, Aristides Volpato; VIVAN, Analise de Souza; BRAGA, Daniela Tusi. Vencendo o transtorno obsessivo-compulsivo: manual de terapia cognitivo-comportamental para pacientes e terapeutas. 3. ed. Porto Alegre: Artmed, 2016.

DAR, Reuven; IQBAL, Muhammad Kamran. Associations between rumination and obsessive-compulsive symptom dimensions. Personality and Individual Differences, v. 113, p. 63-67, 2017.

VEALE, David. Cognitive-behavioural therapy for obsessive-compulsive disorder. Advances in Psychiatric Treatment, v. 13, n. 6, p. 438-446, 2007.

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